Para que serve o para-quedas?

Por Rodolfo Araújo

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Recentemente no British Medical Journal – uma das mais respeitadas revistas de divulgação científica do mundo – publicou um artigo no mínimo curioso. Antes dele, porém, um breve preâmbulo sobre o seu contexto:

O conceito de medicina baseada em evidência diz que só se devem utilizar métodos cientificamente comprovados no tratamento de doenças. À primeira vista parece um tanto quanto razoável, uma vez que por trás de um comprimido parece haver sempre uma enorme carga de ciência. Mas é aí que a coisa começa a se complicar.

Há vários níveis de estudos que podem ser feitos para que a eficácia de um medicamento seja, de fato, comprovada. Para a aprovação de um tratamento, de um medicamento, as exigências são bem altas com o objetivo de torná-lo o mais à prova de erros (e fraudes) possível.

Alguns pré-requisitos são básicos como um grupo-controle (o mesmo número de pessoas que toma o medicamento em teste toma uma pílula igual porém sem efeito – ou, placebo – para comparação dos resultados); duplo-cego (quando nem o médico nem o paciente sabem quem está tomando o medicamento e quem está tomando o placebo – para evitar o conhecido “efeito placebo”, que é a melhora do quadro clínico do paciente, mesmo ele tomando um comprimido inerte); randomizado (onde quem-vai-tomar-o-quê é decidido aleatoriamente).

O número de pacientes que participa do estudo também influi na sua credibilidade uma vez que, quanto maior a amostra, mais representativa ela é da população e, portanto, mais fiéis serão os resultados.

Questões éticas também devem ser observadas. A inclusão de crianças em estudos é sempre polêmica – ainda que determinadas doenças sejam eminentemente infantis.

Outras condições crônicas apresentam alguns dilemas: não se pode suspender a medicação usual para dar placebo a um hipertenso ou diabético num estudo, pois sua condição pode se agravar.

A comunidade médica busca, assim, comprovações fortemente embasadas para suas práticas, de forma a melhor avaliar riscos e benefícios na escolha de uma conduta terapêutica. E consegue, indiretamente, proteção para suas decisões – já que sustentam-se em guidelines correntes.

A discussão do artigo mencionado acima gira em torno do excessivo apego a resultados de estudos. Claro que a medicina deve ser baseada em evidências científicas, mas não só isso. Muito do que se faz hoje – e com resultados – é fruto de observações mas que, por algum motivo, não podem ser comprovadas da forma como os mais puristas gostariam. E assim fecham-se as portas para alguns métodos e procedimentos há muito consagrados pela medicina tradicional.

Gordon Smith (professor da Universidade de Cambridge) e Jill Pell (Universidade de Glasgow) questionaram as evidências científicas de que o uso de pára-quedas previne morte ou traumas graves no “combate a desafios gravitacionais” – nada mais do que uma queda livre.

Para tanto eles realizaram uma meta-análise (revisão de todos os estudos já publicados sobre o assunto, combinando seus resultados através de procedimentos estatísticos) em busca de artigos que explorassem o tema (o pára-quedas é “bom” para queda livre?) obedecendo aos critérios:

:: grupo controle (parte das pessoas pulavam com pára-quedas, parte pulava sem);

:: duplo-cego (nem os pesquisadores nem os voluntários sabiam que mochilas continham os pára-quedas); e

:: randomizado (os voluntários que receberiam mochilas com e sem pára-quedas seriam escolhidos aleatóriamente).

Buscando as principais fontes de artigos médicos disponíveis, Smith e Pell encontraram mais ou menos, algo em torno de aproximadamente nenhum exemplo que obedecesse aos critérios acima. Óbvio, não? Ora, por que, então, as pessoas continuam usando pára-quedas? Afinal, esclarecem, nem todo mundo que usa pára-quedas sobrevive e nem todo mundo que pula ou cai de alturas altas morre.

O tom um tanto jocoso e galhofesco do artigo, bem como o absurdo de seu tema, servem a um objetivo bastante claro na medicina, qual seja, a necessidade de referências altamente científicas que justifiquem uma opinião própria. Claro que os avanços tecnológicos do século XXI formaram bases para uma medicina não tão baseada no achismo e na experimentação. Até porque os advogados do século XXI seguiram o mesmo caminho. Mas isso não significa que práticas consagradas pelo uso, pela tradição e, principalmente, pelo bom-senso devam ser completamente abandonadas.

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Traçando um paralelo para outras áreas do conhecimento, talvez precisemos dar um pouco mais de atenção ao bom-senso em detrimento da ciência pura. Um pouco mais de atenção à intuição e outros sentidos do que a fórmulas e cientificismos exagerados. Ou, pelo bem da ciência, da humanidade, você estaria disposto a participar do primeiro estudo controlado, duplo-cego e randomizado testanto a real eficácia dos pára-quedas?

Fonte: Administradores.com.br

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