Camelô vende remédio abortivo

<Manchete hoje do jornal carioca O Dia.  Este é um argumento importante a favor da legalização do aborto: as mulheres mais pobres têm feito abortos clandestinos e arriscando suas vidas, além de gerar gastos para o SUS. As mais ricas e remediadas, vão a clínicas particulares que todos sabem onde ficam, menos a polícia…>
Ambulantes comercializam Cytotec, medicamento para úlcera que leva à interrupção da gestação e é proibido

Pâmela Oliveira

Rio – Clara, 32, Maria, 30, Teresa*, 33. Elas não têm opinião formada sobre a legalização do aborto no País, tema que tem provocado calorosos debates. Mas as três viveram recentemente o drama da gravidez indesejada. Levadas pelo desespero, apelaram para soluções clandestinas e correram risco de vida.

Nas ruas do Rio, o Cytotec, remédio para úlcera que leva ao aborto e é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é encontrado até com ambulantes. Com uma câmera escondida, equipe de O DIA adquiriu o medicamento no camelódromo da Rua Uruguaiana e combinou a compra do mesmo produto com outro camelô, na Rua do Passeio, também no Centro.

O preço do remédio, que provoca fortes contrações uterinas e é vendido em kits de quatro comprimidos, pode variar de R$ 120 a R$ 350 no mercado negro. A primeira pessoa abordada se dispôs a obter o Cytotec para a repórter, que disse procurar o abortivo para uma amiga. Em meio a CDs e jogos eletrônicos, no camelódromo da Rua Uruguaiana, N. não vendia Cytotec, mas admitiu já ter usado o abortivo. Ela apresentou L., que levou a repórter até D., vendedor que obteria o remédio desviado de uma farmácia, segundo ele.

O “negócio” foi combinado e, no dia seguinte, a embalagem com o medicamento foi entregue. “Ela vai sentir uma dor como se estivesse tendo um filho normal. Vai ter cólica e sentir empurrando para fora”, disse L., que, por ter intermediado a compra, ficou com parte dos R$ 124 pagos pelos quatro comprimidos.

Foi ao comprar remédio na rua e receber instruções de pessoas sem formação na área médica que Maria quase morreu, há seis meses. Seria uma vítima do Cytotec. “Passei a noite inteira com hemorragia. Foi infernal. Pensei que ia morrer porque o feto desceu, mas a placenta ficou. Desmaiei de manhã e fui levada para o hospital. O médico disse que meu estado era grave, fez uma transfusão de sangue e uma curetagem”, lembra.

Mãe de três filhos, Clara também usou Cytotec, há apenas uma semana: “Estou com hemorragia até hoje, mas tenho tomado chás para interromper e antiinflamatório. Tenho dor de cabeça e já tive febre, mas não podia sustentar mais uma criança. Uma colega comprou Cytotec para mim. Hoje é fácil achar quem venda”.

Histórias como as de Clara, Maria e Teresa não são raras. Ano passado, 17.389 mulheres foram internadas nos hospitais conveniados ao SUS no Rio para fazer curetagem, técnica necessária quando o organismo não expulsa o material resultante da gravidez interrompida. No País, foram 221.169 internações para curetagem no mesmo período, segundo o Ministério da Saúde.

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